Importante e pontual essa medida dessa promotora Rita Tourinho, e a recente decisão do sanfoneiro Flávio José de cancelar seus shows em cerca de 15 cidades da Bahia, motivada pela redução drástica de seus cachês, acende um alerta vermelho sobre os rumos da maior festa popular do Nordeste.
O episódio, lamentado inclusive por promotores do Ministério Público da Bahia (MP-BA), expõe as entranhas de uma engrenagem econômica irracional que sufoca a cultura popular em nome do lucro e do espetáculo de massa. Flávio José não é apenas um músico; ele é a continuidade histórica e viva do forró de raiz. Sua obra dialoga diretamente com o legado de Luiz Gonzaga, do Velho Januário, de Marinês, de Clemilda, do Trio Nordestino, Edgar Mão Branca de Oswaldinho, Elino Julião, Lucy Alves, Waldônes, Domiguinhos, e tantos outros e outras do gênero forrozeiro.
Ele representa a identidade de um povo. No entanto, ao ser tragado por essa política de desvalorização, o artista se torna mais uma vítima da "Barretização" do São João baiano — um fenômeno que substitui as tradições comunitárias e os legítimos representantes da cultura nordestina por megaestruturas e megashows que cobram perto de R$ 1 milhão por apenas uma hora de apresentação.
Não faz qualquer sentido social, econômico ou cultural que os cofres públicos financiem cifras astronômicas para o grande complexo da indústria pop e sertaneja, enquanto os baluartes do forró tradicional são empurrados para a margem ou forçados a aceitar condições humilhantes. Essa lógica excludente concentra a renda na mão de poucos oligopólios do entretenimento e esvazia o sentido político e simbólico dos festejos juninos.
É urgente que os responsáveis por essas contratações e pela gestão pública venham a público não apenas para lamentar, mas para prestar contas e expor os critérios dessa disparidade. Diante do avanço predatório do capital sobre a cultura popular, a saída reside na conscientização e na ação coletiva. Cabe aos forrozeiros, aos artistas locais, aos trabalhadores da cultura e ao povo se organizarem.
Se a festa perde sua essência para virar um balcão de negócios, o boicote ao São João mercantilizado surge como um instrumento legítimo de luta e pressão política. Seguiremos dançando o forró legítimo — com ou sem o São João oficial —, mas firmes na resistência contra a transformação da nossa história em mercadoria.
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Joilson Bergher.
Professor/Analista Crítico de Política e Sociedade.
A afirmação "São João não é Rodeio de Barretos" provoca uma reflexão importante sobre os rumos dos festejos juninos na Bahia e em boa parte do Nordeste. Não se trata de uma disputa entre culturas regionais, muito menos de negar o valor da música sertaneja. A questão é outra: quando uma festa secular, construída ao som da sanfona, da zabumba e do triângulo, passa a ser dominada por atrações que pouco dialogam com sua tradição histórica, corre-se o risco de descaracterizar aquilo que a tornou única.
O São João no Brasil nasceu das fogueiras acesas nas comunidades, das quadrilhas, dos trios de forró, dos repentistas, dos encontros familiares e das celebrações populares que atravessaram gerações. Foi através de artistas como Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Jackson do Pandeiro, Clemilda, Marinês e sua gente, e outros e outras..., que o Nordeste projetou sua identidade para o Brasil.
No entanto, ao longo das últimas décadas, a lógica do entretenimento de mercado passou a ocupar espaços cada vez maiores nos festejos juninos, impulsionada por grandes produtoras, patrocínios milionários e cachês que muitas vezes superam todo o investimento destinado aos artistas locais.
Nesse processo, muitos sanfoneiros, trios pé-de-serra e grupos regionais foram sendo empurrados para horários secundários ou simplesmente excluídos das programações. A festa continua lotada, os palcos continuam gigantescos e os recursos continuam circulando, mas cresce a sensação de que algo essencial está sendo perdido: o protagonismo da cultura que deu origem ao próprio São João.
Dizer que "São João não é Rodeio de Barretos" significa defender a diversidade cultural brasileira e afirmar que cada celebração tem sua história, seus símbolos e sua memória coletiva. Assim como seria estranho substituir o samba por outro ritmo no Carnaval do Rio de Janeiro ou o frevo no Carnaval de Pernambuco, também causa estranhamento ver o forró tradicional perder espaço justamente na festa que ajudou a construir.
A pergunta que permanece ecoando é simples: se o São João deixar de ser o território da sanfona, do triângulo e da zabumba, o que restará de sua identidade? Preservar o forró não significa fechar as portas para outros gêneros musicais. Significa garantir que a cultura nordestina não se torne figurante na própria festa que criou. Afinal, uma tradição não desaparece de uma vez; ela vai sendo silenciada aos poucos, até que um dia alguém olha para o palco e pergunta: cadê o forró?.
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Joilson Bergher.
Professor/Analista Crítico de Política e Sociedade.