Haiti e sua memória histórica contra a dominação colonialista: por que a remada Viking é celebrada na copa do mundo?
- 29 Jun 2026 - 21:07h
- Por Professor Joilson Bergher
O debate suscitado pela Copa do Mundo de 2026 vai além do futebol e alcança um tema sensível: quem decide quais histórias podem ser contadas e celebradas no maior espetáculo esportivo do planeta? O caso do Haiti, cuja representação histórica ligada à sua revolução foi alvo de restrições sob o argumento de evitar manifestações políticas, contrasta com a presença de referências aos vikings, frequentemente apresentadas como expressão legítima da identidade cultural de povos europeus.
É justamente aí que emerge uma contradição digna de reflexão. O Haiti representa a única revolução de pessoas escravizadas que triunfou e fundou um Estado independente nas Américas, tornando-se um marco universal da luta pela liberdade. Já os vikings, embora façam parte da história dos povos nórdicos, também estiveram associados a invasões, guerras e processos de dominação. Por que uma narrativa é compreendida como patrimônio cultural, enquanto outra é enquadrada como manifestação política? A resposta não é simples e merece ser debatida.
À luz da história, o pertencimento de um povo não se resume às narrativas que agradam aos vencedores. A identidade nacional é construída tanto pelas conquistas quanto pelas lutas contra a opressão. O Haiti ocupa um lugar singular na história mundial por ter protagonizado a primeira revolução vitoriosa de pessoas escravizadas que resultou na formação de um Estado independente. Quando determinadas referências históricas são tratadas como patrimônio cultural e outras são consideradas inconvenientes ou excessivamente políticas, abre-se espaço para um debate sobre quais memórias recebem legitimidade no cenário internacional e quais permanecem à margem.
Nesse contexto, a discussão ultrapassa o futebol e alcança as relações de poder no sistema internacional. Muitos estudiosos observam que instituições globais frequentemente refletem valores e sensibilidades predominantes nos países mais influentes do Norte Global, o que pode gerar percepções de assimetria na forma como símbolos e narrativas são aceitos ou rejeitados. A provocação entre "política" e "polícia" traduz essa inquietação: até que ponto certas decisões buscam apenas preservar a neutralidade e até que ponto acabam regulando quais histórias podem ser vistas, lembradas e celebradas? Defender a pluralidade das memórias históricas significa reconhecer que identidade, pertencimento e liberdade de expressão cultural são elementos essenciais para que todos os povos tenham o direito de contar sua própria história.
Joilson Bergher.
Análises e Debates.
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