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A “ciência” desconsidera a Ciência: Dr. Fauci e as decisões “sem respaldo científico”
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A “ciência” desconsidera a Ciência: Dr. Fauci e as decisões “sem respaldo científico”

Em junho de 2024, ao ser questionado sob juramento pelo Subcomitê Selecionado sobre a Pandemia do Coronavírus da Câmara dos Representantes dos EUA, o dr. Anthony Fauci, principal força motriz das várias políticas relacionadas à pandemia de Covid-19 que se tornaram modelo para o restante do planeta, foi categórico ao afirmar que as decisões tomadas não “tinham respaldo científico” (Câmara de Representantes dos EUA, 2024), dentre as quais o distanciamento de cerca de 1,8 metro (6 pés na medida americana) e o polêmico uso de máscara em crianças, gerando grande alvoroço na imprensa mundial. Para além da discussão de mérito “científico” de tais políticas, as palavras do ex-diretor do National Institutes of Health (NIH), órgão equivalente ao Ministério da Saúde brasileiro, traz consigo profundas reflexões sobre como as sociedades e a própria comunidade científica, atualmente pouco afeita à livre discussão de ideias, compreende o modus agendi do labor científico, atividade própria do intelecto especulativo humano de busca pelo saber, mas que todavia vem se adornando de uma infalibilidade que se choca com seus próprios fundamentos.

O contexto da fala do ex-diretor que desenovela a presente discussão tem um significado bastante preciso no meio científico. A falta de respaldo científico implica que tais tomadas de decisão não foram embasadas em resultados oriundos de testes empíricos, sendo apenas “meio que simplesmente apareceu (sic)”, para citar ipsis litteris o depoente. Em outras palavras, as decisões foram tomadas com base em assunções ou hipóteses que não foram devidamente avaliadas quanto ao seu mérito científico. Hipóteses são os dínamos da Ciência, pois os fenômenos naturais não nos fornecem respostas prontas: é preciso instigar a natureza com perguntas e proposições e, em certa medida, violar a estrutura do real, isolando associações causais de interesse em meio a uma miríade de relações, ou como precisamente colocado no Didascalion do longínquo século XII: “analisar de forma pura aquilo que na Natureza está misturado” (Hugo de São Vítor, 2016).

Esta perspectiva está muito próxima da visão popperiana de Ciência que sinteticamente atribui cientificidade àquilo que é passível de refutação (Popper, 1974). Neste sentido, a formulação de uma hipótese sobre distanciamento ou outra medida potencialmente preventiva não carece in totum de fundamentação científica, pois não apenas está em linha com o paradigma das doenças transmitidas pelo ar, como também está susceptível à refutação ou corroboração, ainda que a tão sonhada “prova inconteste” seja resvaladiça. O cerne do problema em discussão não reside na fundamentação da hipótese, que tem méritos em potencial, mas no conceito de evidência científica. As ciências empíricas encontram-se na categoria do saber provável, não apodítico, diferentemente das ciências lógico-matemáticas. Já bem sabiam os filósofos escolásticos, devidamente aconselhados pelos antigos, que a capacidade humana de saber é naturalmente contingenciada por limites gnosiológicos, físicos, metafísicos e empíricos. Em outras palavras, nossas potências intelectivas não conseguem assimilar toda a rede causal da Physis e, mesmo que uma dada explicação para determinado evento seja verossímil, não existem garantias que outras explicações não lhe sejam superiores (Artigas, 1992).