A recente eleição na Colômbia, que aponta a vitória de um candidato de ultra-direita alinhado ao trumpismo por uma margem estreita, reacende um debate profundo sobre a soberania e os rumos políticos da América Latina. Para compreender esse cenário para além da superfície do noticiário, é inevitável recorrer a uma das obras mais emblemáticas da tradição crítica regional: As Veias Abertas da América Latina, do escritor uruguaio Eduardo Galeano.
Na obra clássica, o autor sintetiza a lógica histórica do continente ao afirmar que "a divisão internacional do trabalho consiste em que uns países se especializam em ganhar e outros em perder" (GALEANO, 2010, p. 19). A partir dessa premissa, ele sustenta que a riqueza dos grandes centros capitalistas globais se construiu sobre a exploração contínua dos recursos naturais e do trabalho dos povos latino-americanos. Se no passado a espoliação ocorria pela prata de Potosí ou pelo controle do açúcar e do café, uma atualização desse pensamento nos dias de hoje sugere que as "veias" da região continuam abertas, embora drenadas por novos mecanismos.
A dominação colonial direta deu lugar ao controle financeiro internacional, à influência de grandes corporações transnacionais, à pressão geopolítica e à manipulação através da comunicação digital. Sob essa ótica, o avanço da extrema-direita na Colômbia e em outras partes do continente não é um fenômeno isolado, mas o reflexo de crises sociais profundas, da insatisfação popular capturada por discursos populistas e, fundamentalmente, da atuação de grupos econômicos que defendem o alinhamento irrestrito aos interesses de Washington e do livre mercado global.
A postura de lideranças políticas locais que adotam uma retórica subserviente em relação às potências centrais ilustra o cerne da tese de Galeano: a perpetuação de uma posição subordinada na divisão internacional do trabalho. O oferecimento das riquezas do país — em especial as do setor mineral e energético — a uma potência estrangeira que enfrenta as suas próprias crises estruturais é visto, sob o olhar crítico da esquerda, como uma entrega da soberania nacional.
Trata-se de hipotecar o futuro e a esperança de milhões de colombianos a um sistema global que muitas vezes trata as demandas do Sul Global com manifesto desprezo. Enquanto o presidente Gustavo Petro pede cautela as reações surgidas na Colômbia quê se vê mais uma vez no centro de uma encruzilhada histórica que define toda a América Latina.
A disputa atual permanece a mesma denunciada por Galeano há mais de meio século: de um lado, projetos que buscam a soberania nacional, a justiça social e a integração regional; do outro, a renovação de laços de dependência econômica e política que mantêm as veias do continente abertas para a exportação de suas riquezas e a importação de sua própria pobreza.
Fonte Bibliográfica.
GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Tradução de Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 2010.
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Joilson Bergher.
Analista Crítico de Política e Sociedade.