No primeiro bimestre de 2026, a Bahia contou com um registro de 671 vítimas de estupro, o que equivale a 11 vítimas por dia no estado. Dentro deste cenário de violência, um fator que chama atenção é a proporção de casos de estupro de vulneráveis de várias faixas etárias, não somente contra menores de idade. Com 498 casos, o número de violência sexual contra esse grupo representa 74% do total. Os números foram extraídos do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp).
Historicamente, pessoas do sexo feminino são as maiores vítimas. Dentre as quase 500 vítimas registradas em janeiro e fevereiro no país, as 405 mulheres agredidas correspondem a 81% dos casos totais. Desse universo, 82 vítimas foram do sexo masculino e 11 casos não foram informados o sexo das vítimas.
“No caso das mulheres, a violência é alimentada por forte presença patriarcal, de objetificação de meninas e mulheres e de assimetrias de gênero. As altas taxas de vulnerabilidade entre vítimas, tanto masculinas quanto femininas, revelam que autores-agressores encontram oportunidades na desproteção”, analisa Vanessa Cavalcanti, docente e investigadora do Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, gênero e feminismo da Universidade Federal da Bahia.
Para Nágila Brito, desembargadora do Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA), o estupro de vulnerável está dentro de uma lista de “piores crimes”. Ela alerta que, muitas vezes, nos casos de agressão a menores, o crime é cometido pelos próprios pais ou parentes próximos.
Apesar das mulheres corresponderem à maioria dos casos, ainda é preciso ter atenção para vítimas do sexo masculino. O que chama atenção nesse público é a disparidade. Considerando todas as 95 vítimas de estupro neste ano, 86% dos homens foram vítimas de estupro de vulnerável. Dentre o sexo feminino, o número é de 71%.
O conjunto de 82 vítimas do sexo masculino revela um crescimento de 10% em violência direcionada a essas pessoas em relação aos últimos dois meses de 2025, que contaram com 74 homens/meninos agredidos sexualmente. Outro fator importante a ser considerado é o aumento dentro de 2026. Foram 34 vítimas em janeiro, enquanto fevereiro contou com mais 48 casos registrados.
pesquisadora Vanessa Cavalcanti também destaca que o fato de crianças e jovens não denunciarem e precisarem de apoio de responsáveis adultos influencia negativamente em reconhecer o real cenário, já que dependência, silenciamentos e abusos são fatores que provocam essa subnotificação.
“Somado a isso, a denúncia pode ser tardia, muitas vezes anos depois, perpetuando um ciclo de impunidade que se sustenta na vulnerabilidade física e emocional”, complementa a investigadora. Ela chama atenção para o fato de que os meninos sofrem mais abusos em idades menores.